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Centro de (des)emprego

Depois de termos dado conta neste espaço de uma medida absurda do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) aplicada aos desempregados, a da obrigatoriedade de apresentação quinzenal na Junta de Freguesia da sua área de residência, com objectivos que desconhecemos, e também, em segunda crónica, de um instrumento de divulgação de ofertas de emprego pejado de intenções eticamente questionáveis, vamos debruçar-nos agora sobre a missão do próprio IEFP tal como o mesmo a define.

Segundo pode ler-se na documentação entregue aos desempregados, que não conheceríamos não fora o dossier que nos dão, existe uma “coisa” chamada PPE e outra PAE. Ora bem!

Por PAE entenda-se Procura Activa de Emprego.

Por PPE, Plano Pessoal de Emprego.

A definição das diligências da PAE inclui a resposta a anúncios e outros meios de informação de ofertas de emprego; a apresentação de candidaturas espontâneas; a criação do próprio emprego; o registo do curriculum vitae em sites da internet e a inscrição em empresas de recrutamento e selecção, em empresas de trabalho temporário e agências privadas de colocação.

Enfim, quase que poderíamos dizer que até aqui tudo bem não fora a última alínea ser tão duvidosa! Deve o Estado, através do IEFP, promover as empresas e agências suas “concorrentes”, empresas estas que ficam com uma percentagem do dinheiro dos salários dos trabalhadores?

A demonstração da prova de Procura Activa de Emprego (PAE) é, segundo o IEFP, um caso sério que se demora em 10 extensas e exigentes alíneas. Destaco duas ou três!

Para fazer comprovativo do envio dos currículos deve o desempregado ter a cópia do registo de envio da carta. Ora convenhamos! Enviar uma carta já sai caro, enviá-la com registo mais ainda!Para fazer comprovativo da resposta a anúncios deve o desempregado possuir a carta de resposta das entidades contactadas. Pois bem! É certo e sabido que ninguém, mas ninguém neste País responde aos milhares de currículos recebidos diariamente nas secretárias ou nas caixas de e-mail! É uma vergonha. Deviam ser obrigados a fazê-lo já que o Estado o impõe como condição, mas…

E finalmente, para fazer comprovativo da comparência nas entrevistas de emprego deve o desempregado possuir uma declaração emitida por um representante da entidade, mas caso tal não seja possível aceita-se uma declaração sobre compromisso de honra com indicação expressa da entidade onde a entrevista ocorreu, para “eventual confirmação por parte do Centro de Emprego”.

Todos os procedimentos, do Centro de Emprego à repartição da Segurança Social e desta à Junta de Freguesia, partem sempre da desconfiança, possuem um carácter intimidatório, a linguagem é de proibição, de vexame, de policiamento, ainda que – diga-se – os funcionários dos ditos locais quase não nos dirijam palavra.

O atendimento é breve. As perguntas são de identificação pessoal ou de carácter patrimonial (que bens tem, quanto valem, onde estão registados, quanto dinheiro tem na conta, etecetera, etecetera), contudo são suficientemente incómodos.

Os funcionários falam pouco, portanto. E, assim, ficamos a conhecer os deveres pelo papel e é também no papel que curiosamente conhecemos os direitos. Descubro com surpresa que compete aos Centros de Emprego definir com os candidatos as diligências mínimas a efectuar, o tipo de acções a desenvolver, assim como as respectivas quantificações e frequências com que devem ocorrer. Chama-se a isto o tal PPE no âmbito do qual deve, segundo o próprio Instituto, promover-se o envolvimento do desempregado e a sua atitude pró-activa, tendo em conta para tal os factores individuais e de contexto!

É evidente que se não formos nós a fazer-nos valer, não é o IEFP que o faz! Esta abordagem não existe. Este acompanhamento não é feito. Este tratamento não tem lugar.

Se ao menos pudéssemos marcar-lhes faltas também!?

Mjaneiro

Vale tudo

Recebo todos os dias na minha caixa do gmail um e-flyer do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP). O dito é produzido com base na informação compilada numa base de dados, a nível nacional, o denominado portal Net-Empregos anunciado com pompa e circunstância por Sócrates há uns anos atrás.

Com 1.196.448 candidatos inscritos, o portal auto-denomina-se “o maior site de emprego em Portugal”. Nele se podem registar quer pessoas à procura de trabalho, quer entidades à procura de trabalhadores.

Porém, a plataforma e os e-flyers que produz de institucional e sérios têm muito pouco.

Como admitir publicidade neste tipo de suportes? E que publicidade? Quem ganha com isso? O próprio Estado? A quem pediu ele autorização para a veicular? Aos candidatos inscritos? Deve o próprio Estado “alimentar” a promoção de agências financeiras duvidosas quando o crédito mal parado atinge no País elevados números? E deve escolher os desempregados como público-alvo para a promoção dessa mensagem? Isto é ético?

Pode o Estado, através do IEFP, promover junto dos desempregados o Barclaycard com créditos até 6 mil euros? Ou a Cetelem? Ou utilizar os seguintes slogans “Tenha até 20.000€ na sua conta em 48 horas. Pré-aprovação on-line”, “Cartão de Crédito CITI: anuidades grátis para sempre!”, “De 500€ a 4 000€. Mensalidades fixas a partir de 15€”.

E promover os seguintes passatempos? “Johnnie Walker Experiences Habilite-se a ganhar prémios”, “Participe e Ganhe até 114.000EUR! Concurso Roda do Ouro”?

Deve o portal do IEFP e os e-flyers que produz a comunicar as ofertas de emprego disponíveis, fazer publicidade a “escolas” onde se aprende inglês a crédito e a prestações?

E o que dizer da promoção de entidades que não se identificam? Em cujo cabeçalho surge “anónimo”? Ou da aceitação de requisitos onde esteja expressa a idade máxima do concorrente? E do género?

Outros há em cujo e-flyer surgem escritos abusos como este “6 meses de estágio curricular não remunerados” ou este ainda mais gritante “PROCURA-SE jornalista na área da comunicação preferencialmente que tenha experiência no âmbito de revistas jornais, rádios e restantes órgãos comunicação social com capacidade de organização e gestão das diversas matérias e que queira trabalhar muito e ganhar pouco!”?

Leu bem! Fiz copy paste.

E chamam a isto serviço público?

Mjaneiro

o medo da fuga…

António Vilar (chamemos-lhe assim para dar humanidade à “peça”) tem 36 anos, é natural de Vila Real, a Norte, foi ontem presente a juiz.

Eu, Margarida Janeiro, tenho 35 anos e sou natural de Beja, vivendo actualmente em Faro.

António Vilar foi, cuja profissão é ser burlão, foi apanhado ontem pela PJ no âmbito da operação Tax Free.

Eu, Margarida Janeiro, escolhi ser jornalista e não tendo sido ontem, mas quase, fui apanhada na curva ascendente do desemprego.

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